terça-feira, 18 de agosto de 2009

Closer


"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura." - Guimarães Rosa

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Tato

Imagem: Anna Cunha
"Quero, no escuro, como um cego tatear estrelas distraídas"

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mon petit cahier


Ganhei um caderno. Na capa, bolas coloridas e um olhar castanho. A moça tem cílios e boca cor-de-rosa contornados por grafite. Disse o galanteador, que se lembrou de mim. Na última página, ao contrário dos livros, uma dedicatória de amor. O presente mais bonito que ganhei.
No momento em que abri, uma frase brotou quase que instantaneamente na imensidão marfim. E uma série de lembranças saltaram para o meu colo, afrouxando o coração.
Há um ano, eu me sentava na grama, novamente, ao lado dele. A ocasião trazia as mesmas tristezas que invadiram de súbito o coração de menina debutante. Hora de a vida revelar, com sua voz amarga, seu verdadeiro dèbut.
Com passarinhos de papel, a frase ecoava como canção, enquanto o mar dividia suas águas com o olhar. Talvez o som viesse lá de dentro. Talvez as palavras eram dele, que com sua mão áspera acarinhava a minha alma, novamente, me lembrando que tudo estava bem.
Por isso, escolho essa frase para iniciar mon petit cahier, com letras grandes e desengonçadas.

"Saudades daquilo que podia ter sido e que não foi"

E se me permitirem os sonhos, que seja apenas a introdução.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sem saber se era quinta-feira ou sábado, ela acordou alegre e desceu estalando as escadas correndo, como sempre faz , mesmo depois de um tombo daqueles, que deixaram seu bumbum dolorido. Tagarelou, como faz às vezes, brincou de pega-pega no quintal e comeu uvas gordas e vermelhas como criança com caixas de bombom.
Quando abriu a porta, o sol esticou seu tapete dourado e ela sorriu diante daquela imensidao azul. Roubou óculos escuros e saiu desfilando o roxo de seu vestido pela rua suja da cidade mágica.
Mas de repente, ela tropeçou no medo. E os olhos ficaram menos castanhos e os cabelos menos esvoaçantes. Até o roxo do vestido foi pingando cor pelo caminho.
E bem longe dela, aquele coelho branco do sonho desapareceu em um pulo para dentro do buraco. E agora, Alice?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Malandragem

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Adélia Prado

domingo, 22 de março de 2009

Primeira vez


Imagem: Anna Cunha

Sei que às vezes dou respostas invertidas. Às vezes as palavras não saem da boca, me confundo, caguejo, estremeço. Às vezes também tagarelo, desando a rir e embaralho as frases. Às vezes engasgo, soluço, falo baixo e ninguém ouve. Porém, em todos os momentos, escrevo. Porque é assim que o coração sai do peito e aparece em seu ritmo ao mundo. Escrever é a forma que encontrei para aveludar a minha voz. Agora, a menina de lá, também empreende solitariamente, em voz de veludo.
Espero que gostem!